O que Barack Obama me fez pensar sobre o futuro dos nossos filhos
Na semana passada estive à conversa com o Presidente Barack Obama, no palco da MEO Arena. Esta semana quero partilhar o que ficou.
Antes disso, prometi contar alguns pormenores dos bastidores. E houve momentos que dificilmente vou esquecer.
O primeiro foi quando o vi chegar. Estava à espera junto ao elevador, como a equipa dele me tinha pedido. Quando as portas se abriram, começaram por sair alguns elementos da equipa e, logo a seguir, apareceu Obama. Veio diretamente ter comigo, cumprimentou-me com uma enorme simpatia e disse algo como: "Como estás, Ricardo?"
Confesso que estar ao lado de Barack Obama, uma pessoa que admiro há tantos anos, me intimidava bastante mais do que falar perante milhares de pessoas na MEO Arena. Mas bastaram aqueles primeiros minutos para perceber que ia ser uma conversa muito natural.
Tivemos também oportunidade de falar de coisas que não chegaram ao palco. Dos meus filhos, do sítio onde vivo e até de surf. Obama recomendou-me que fosse experimentar as ondas do Havai, onde, segundo ele, a água é muito mais quente.
E houve um pequeno momento que me chamou a atenção. Imediatamente antes de entrarmos em palco, afastou-se ligeiramente e ficou alguns segundos concentrado, no seu próprio espaço. Mesmo alguém com tanta experiência parece precisar daquele instante para se preparar.
Mas, entre tudo o que aconteceu naquele dia, há uma ideia que saiu da conversa e sobre a qual não consigo parar de pensar.
Nos debates sobre inteligência artificial, a pergunta dominante é sempre a mesma: o que é que as máquinas vão conseguir fazer? Obama puxou-nos para outra pergunta, e eu acho-a mais útil.
Que capacidades humanas queremos continuar a valorizar, mesmo quando uma máquina já faz parte das tarefas que hoje lhes associamos?
Para explicar a ideia, não escolheu um cientista, nem um CEO. Escolheu um professor e uma enfermeira.
Um sistema de IA pode explicar uma matéria, propor exercícios e resumir um livro. Em tarefas bem definidas, pode até ser melhor do que os profissionais. Mas ensinar uma criança vai muito além de lhe passar informação. Um bom professor ajuda-a a acreditar que consegue aprender e percebe quando ela precisa de atenção. E o trabalho de uma enfermeira vai muito além de dar os medicamentos certos à hora certa. Há ali presença e cuidado, e isso não cabe numa folha de cálculo.
Obama ligou isto a uma crítica que me parece justa. Pagamos mal muitas das profissões ligadas ao cuidado, e são indispensáveis. Uma sociedade pode pagar muito pelo que escala com facilidade e pouco pelo que exige tempo humano e responsabilidade. O mercado põe preços, mas isso não quer dizer que esses preços reflitam o valor social por inteiro.
Falou também de julgamento e de sabedoria. As máquinas identificam padrões e fazem recomendações, mas essa capacidade não lhes dá a responsabilidade de decidir o que é importante. Numa empresa, um sistema pode recomendar fechar uma linha de negócio ou reduzir uma equipa. Pode até estar certo nas contas. E mesmo assim essas decisões mexem com clientes, pessoas e compromissos, e é um líder quem tem de responder por elas.
Dizer que a IA ajuda a decidir é uma coisa. Dizer que deve decidir por nós é outra, bem diferente.
A minha posição talvez não agrade a nenhum dos extremos. Não aceito que a tecnologia nunca venha a fazer tarefas que hoje chamamos humanas. Também não alinho no entusiasmo de quem acha que tudo o que se pode automatizar deve ir já para uma máquina. Prefiro perguntar que resultado queremos, com que riscos, e onde é que a intervenção humana acrescenta mesmo valor.
Quem me ouve falar de produtividade sabe que não defendo trabalhar mais horas para ter os mesmos resultados. Defendo eliminar desperdício, clarificar objetivos e usar tecnologia. Mas a produtividade tem de servir para alguma coisa. Quando poupamos uma hora com um sistema mais eficiente, o que fazemos com ela? Marcamos outra reunião inútil? Ou usamos o tempo para ensinar, ouvir, pensar melhor e acompanhar um cliente?
É aqui que a reflexão de Obama se cruza com uma ideia que defendo há anos: a felicidade é lucrativa.
A expressão é muitas vezes mal percebida. Não estou a dizer que as empresas devam transformar a felicidade numa obrigação, com entusiasmo forçado e sorrisos para a fotografia. Estou a dizer que respeitar pessoas, dar autonomia, cuidar das relações e construir uma boa cultura tem consequências económicas. Equipas que confiam umas nas outras tendem a partilhar informação mais cedo, a apanhar os erros antes de ficarem graves e a colaborar melhor.
Ignorar o lado humano do trabalho custa dinheiro. Mesmo quando isso demora a aparecer nas contas.
Uma PME pode começar por olhar para os momentos em que a presença humana pesa mais. O acompanhamento de alguém que acabou de entrar. Uma reclamação difícil, uma conversa sobre desempenho, uma negociação delicada. A tecnologia não tem de sair destes momentos. A IA pode preparar a informação e tirar trabalho administrativo da frente. O que não pode é servir de desculpa para a conversa que importa deixar de acontecer.
Automatizar o trabalho e automatizar relações parecem a mesma coisa. Uma empresa que não perceba a diferença pode ficar eficiente e desumana ao mesmo tempo.
Deixo-te uma pergunta, e vale a pena escreveres a resposta.
Que relações é que a tua empresa não pode perder, mesmo que consiga automatizar quase tudo?
Desconfio que a resposta diz muito sobre a vantagem competitiva real do teu negócio.
O futuro vai ser mais tecnológico. A humanidade continua lá, só que passa a ser uma escolha de gestão. E cada vez mais consciente.
Nas próximas semanas vou continuar a partilhar o que ficou desta conversa com Barack Obama. Há outros temas que o Presidente trouxe para cima da mesa, ideias que merecem ser exploradas e alguns momentos da nossa interação, dentro e fora do palco, que ainda quero contar.
Até já,
Ricardo
Melhor gestão cria melhores empresas. E melhores vidas.
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