Contratei bem na entrevista e mal na execução
Houve entrevistas em que saí da sala convencido. A pessoa respondia bem. Tinha o percurso certo. E explicava o próprio trabalho com uma clareza que poucos têm. Ninguém levantou dúvidas. Quando todos concordam depressa costuma ser bom sinal e às vezes é apenas conforto.
Meses depois, com o trabalho já a andar, percebi que tinha escolhido mal. Não por má vontade de ninguém. Apresentar não é executar. Eu tinha-me deixado convencer pela apresentação.
O que a entrevista mede mesmo
Uma entrevista mede bem três coisas. Fluência, a forma como a pessoa organiza uma ideia em voz alta. Presença, o modo como ocupa uma sala e lida com o desconforto de estar a ser avaliada. E capacidade de contar o próprio trabalho. A pessoa escolhe o que diz, dá-lhe sequência e sai bem na fotografia.
São competências reais. Nenhuma delas é a competência do cargo, salvo quando estamos a contratar alguém para vender ou para falar em público.
O que a entrevista não mede é o que decide tudo. A entrega sob pressão. O comportamento quando ninguém está a ver. A qualidade do trabalho a meio de um trimestre mau, quando já passou o entusiasmo do primeiro mês.
Porque o CEO experiente cai mais
Quem contrata há pouco tempo segue o processo à risca, porque não confia no próprio julgamento. Quem contrata há muitos anos faz o contrário.
Ao fim de algumas dezenas de contratações, o CEO ganha uma leitura rápida de pessoas que acerta bastantes vezes. Essa leitura é útil, é experiência comprimida. O problema é aquilo que ela autoriza.
Quando gosto muito de um candidato, deixo de ver o processo como proteção e passo a vê-lo como burocracia. Já sei a resposta, para quê fazer as perguntas.
Nas contratações que me correram mal, o erro raramente esteve na intuição. Esteve no que a intuição me deu licença para dispensar.
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