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Como executar a estratégia numa PME: um sistema de gestão que funciona

Um sistema prático para executar a estratégia numa PME com prioridades, KPIs, OKRs, reuniões, decisões claras, responsabilização e aprendizagem.
Como executar a estratégia numa PME: um sistema de gestão que funciona

Em janeiro apresentaste o plano. Slides bons, prioridades escritas e a sala em silêncio a concordar. Em março o ficheiro está numa pasta do servidor e ninguém voltou a abri-lo.

O que me interessa é que não aconteceu nada de especial pelo meio. Um cliente com uma urgência em fevereiro. Uma pessoa que saiu e deixou trabalho sem responsável. E a reunião de segunda-feira, que devia acompanhar o plano, voltou a ser uma lista de pendentes.

Depois chegaram as prioridades novas, cada uma com um bom argumento por trás. Nenhuma prioridade nova obrigou a empresa a largar o que já lá estava.

E é aí que o plano deixa de existir. Ninguém o abandonou e ninguém escreveu isso em lado nenhum, só que também ninguém teve de o defender contra o que chegou depois. A estratégia sai da agenda antes de sair da cabeça das pessoas. Quando sai da agenda, deixa de alterar seja o que for.

Executar a estratégia numa PME significa transformar escolhas em prioridades com responsáveis, recursos, indicadores, direitos de decisão e uma cadência regular de acompanhamento. A estratégia só está em execução quando altera as agendas, a distribuição de recursos, as decisões e o trabalho real. Não se produz apenas com motivação, comunicação ou alinhamento cultural, tem de aparecer nos ciclos de acompanhamento.

Segundo dados do INE referentes a 2023 e divulgados em junho de 2025, as PME representavam 99,9% das empresas não financeiras e 77,9% do emprego no setor empresarial não financeiro. É para essas empresas que escrevo. E quase todas se gerem com muito menos estrutura do que os modelos de gestão em circulação assumem.

Liderei a PHC Software durante mais de 35 anos. Boa parte disto aprendi tarde e aprendi a bater com a cabeça, incluindo a parte em que fui eu, durante demasiado tempo, o gargalo da execução da minha própria empresa.

Porque é que a estratégia desaparece

Quase ninguém falha na execução por preguiça. Falha-se com a empresa cheia de gente a trabalhar muito, o que torna o problema mais difícil de ver. A energia vai quase toda para a empresa se coordenar a si própria e coordenação manual não escala.

Há um inquérito que uso muito quando falo disto. Donald Sull, Rebecca Homkes e Charles Sull ouviram mais de 11 mil executivos e gestores em mais de 400 empresas. Cerca de um terço dos quadros seniores conseguiu identificar as três prioridades principais da própria empresa. E mesmo entre quem participou na definição da estratégia pouco mais de metade as soube dizer. Menos de 10% afirmou poder contar sempre com colegas de outras áreas ou unidades.

Este último número é o que me tira o sono. Falamos de gente competente que aprendeu, à custa de esperas repetidas, que não vale a pena contar com a área do lado.

Isto não se resolve apenas comunicando mais. Há excesso de prioridades, mensagens que se diluem pelo caminho, coordenação entre áreas que ninguém desenhou e incentivos que continuam locais.

Um aviso, porque é fácil usar mal estes números. A investigação incidiu sobretudo sobre organizações grandes, por isso não a leio como retrato das PME. Leio-a como descrição de mecanismos que também aparecem em empresas pequenas, muitas vezes mais depressa, por haver menos folga.

Nas PME com quem trabalho, sete padrões explicam quase tudo.

Prioridades em excesso. Cada uma entrou com bom argumento e nenhuma obrigou a largar outra. Quando tudo é urgente, quem decide o que se faz primeiro é quem gritou mais alto. E a operação ganha sempre, porque tem cliente do outro lado.

Decisões concentradas. Sobem por hábito ou por receio, muitas vezes com quem está abaixo a ter mais contexto. O custo aparece no tempo em que o trabalho fica parado à espera delas, tema de as decisões que estão presas em ti custam mais do que pensas.

Dependências entre áreas. Filas invisíveis, que não aparecem em plano nenhum e só se sentem no atraso. É aqui que os silos deixam de organizar trabalho e passam a proteger território, como desenvolvo em quantas empresas tens dentro da tua empresa.

Reuniões sem decisões. Discute-se, conclui-se pouco e ninguém sai com prazo. Os temas transversais sofrem mais, por não terem ninguém que os empurre entre reuniões.

Indicadores sem consequência. Existem, são apresentados e nada acontece quando saem do esperado. Ao terceiro mês, toda a organização percebeu que aqueles números não mandam em nada.

Informação dispersa. Cada área tem a sua versão, com definições e fontes diferentes. E a reunião passa a discutir de quem é o número certo em vez do problema.

Ciclos que não fecham. Entrega-se, passa-se ao assunto seguinte e não fica registo do que correu mal. Sem a memória, repete-se o mesmo erro de dois em dois anos.

Vi isto tudo junto num trimestre em que quisemos, ao mesmo tempo, melhorar a aquisição de clientes e reduzir a saída dos que já tínhamos. Marketing dependia de Produto, Produto de Operações, Operações do Financeiro e o Financeiro pedia a justificação às Vendas. No fim do trimestre estavam todos ocupadíssimos e tínhamos entregue pouco.

Na minha experiência, quanto mais áreas uma iniciativa atravessa, maior é o risco de a coordenação consumir o trabalho que devia fazer avançar.

A estratégia numa página

Antes de montar sistema nenhum, escreve a estratégia numa página. Não substitui o trabalho estratégico a sério, serve para tornar as escolhas utilizáveis por quem tem de as executar. Uso nove perguntas. E as quatro primeiras são escolhas estratégicas:

  • Onde queremos chegar e que indicadores demonstram que chegámos?
  • Onde vamos competir, em que segmentos e com que clientes?
  • Como vamos ganhar, ou seja, porque é que um cliente nos escolhe a nós?
  • O que decidimos não fazer, escrito com nome próprio?

As cinco seguintes são condições de execução:

  • Quais são as prioridades deste ano?
  • Que recursos mudam de sítio, de onde para onde?
  • Que riscos acompanhamos e com que sinal de alerta?
  • Que indicadores mostram progresso real e não atividade?
  • Que decisões deixam de subir ao CEO?

A quarta é a que fica sempre em branco. Acrescentar sabe qualquer um. Qual foi a última coisa que a tua empresa parou de fazer para dar espaço a uma prioridade nova?

As quatro leis da execução

Ao fim de muitos anos, reduzi o que sei sobre execução a quatro frases. Funcionam como princípios de diagnóstico e uso-os quando quero perceber depressa onde é que uma empresa está a perder.

Se não entra na agenda, não existe

Uma prioridade sem espaço reservado é uma intenção. A agenda é o único sítio onde as escolhas de uma empresa se veem sem maquilhagem.

O erro é sempre o mesmo: confiar que o assunto vai aparecer sozinho porque é importante. Não aparece. O urgente ocupa o espaço que a disciplina deixou vago. E ocupa-o com boas razões, o que torna a coisa mais difícil de parar. Marca antecipadamente os momentos principais do ciclo, mesmo que não seja o ano inteiro.

Há quatro agendas que convém não confundir: a da direção, a das equipas, a do responsável por cada prioridade e a dos ciclos. Estar na agenda também não é o mesmo que estar numa reunião. Uma prioridade só lá está quando aparece no tempo de execução de alguém e na alocação de recursos, como desenvolvo em toda a gente sabe que isto é importante.

Se não tem responsável, não acontece

Um tema com responsável coletivo é um tema sem responsável. Departamentos não decidem, não respondem por prazos e não podem ser chamados a uma sala.

O clássico é escrever "Operações" na coluna do responsável. Fica bem no documento. E depois o assunto derrapa e cada pessoa daquela área tem uma explicação razoável para não ter sido ela.

Quem responde precisa de contexto, de autoridade e de capacidade para mobilizar recursos. Não executa tudo e muitas vezes coordena várias áreas, mas tem de aceitar a responsabilidade em voz alta, à frente de quem depende dele. Aceitar por email não conta.

E se as dependências críticas estiverem fora do seu controlo, tem de haver um caminho definido para as resolver, com prazo. Sem isso, a responsabilidade é ficção. Isto liga-se à forma como delegas, tema de delegar tarefas não liberta ninguém.

Se não fica registado, repete-se

As decisões que não ficam escritas voltam a ser discutidas. Às vezes daí a três semanas, às vezes daí a dois anos, com pessoas diferentes e exatamente os mesmos argumentos.

O registo útil é curto: o que ficou decidido, quem decidiu, quem responde pela implementação, a consequência prática e a data. Cinco linhas chegam.

Na PHC adotámos a regra de que uma decisão relevante só passava a fazer parte do sistema quando ficava registada num sítio comum e pesquisável. Funcionou para nós, mas não a dou como norma. Numa equipa de oito pessoas, manter o registo pode custar mais do que vale.

Registo de decisões, procedimentos, documentação de processos e relatórios são coisas diferentes e vejo isto confundido com frequência. Documentar tudo é uma forma dispendiosa de não documentar nada. Prioriza as decisões relevantes e o trabalho repetível de risco ou valor elevado.

Se os ciclos não fecham, não se aprende

Um ciclo que não fecha é trabalho sem aprendizagem. A empresa entrega, passa ao assunto seguinte e leva os mesmos hábitos para o trimestre a seguir.

Fechar significa comparar o esperado com o realizado, perceber os desvios, escolher mudanças no sistema, pôr responsável e data em cada uma e voltar a olhar para elas no ciclo seguinte. Apresentar resultados não chega e a última parte quase nunca acontece.

Limito-me a duas ou três alterações por ciclo. Trata-se de um limite prático que arranjei para não sair das retrospetivas com listas que ninguém vai executar. Sobre a diferença entre sentir progresso e ter progresso, escrevi em estamos a progredir.

Os cinco motores do sistema

As leis dizem-te onde está o problema. Não o resolvem. Quem o resolve são cinco peças que, montadas, fazem o trabalho que hoje depende da tua insistência diária.

Nenhuma funciona sozinha. Objetivos sem cadência tornam-se intenções, indicadores sem consequência tornam-se arquivo e cadência sem objetivos é só um hábito dispendioso.

Motor 1. Cadência

Não te vou dizer que a cadência resolve a coordenação, porque não resolve. Reduz a coordenação improvisada, torna as dependências visíveis e cria momentos previsíveis para decidir. Já é muito.

O erro que vejo mais é acrescentar reuniões em vez de substituir. Fica-se com a agenda cheia e a lentidão intacta.

Motor 2. Indicadores de gestão

Aqui é onde eu próprio mais errei, por isso vou com cuidado.

Um KPI, indicador chave de desempenho, mede algo que se acompanha sempre e serve para saber, sem discussão, como está a saúde do negócio. O erro habitual é medir muito e reagir a pouco.

O que resolveu isto para nós foi obrigar cada indicador a ter uma ficha: definição, fórmula, fonte acordada, frequência, responsável pela qualidade dos dados, responsável pela resposta empresarial, limites esperados e ação prevista quando o número sai do esperado. A fonte pode ser um sistema ou uma folha controlada, desde que seja acordada e validada.

Para uma PME que começa, eu ficaria por dez a quinze indicadores no painel da direção. É o meu ponto de partida, não uma regra.

Há uma coisa que demorei anos a perceber. A partir do momento em que um indicador influencia avaliação ou reconhecimento, passa a orientar o comportamento, queiras ou não.

Tivemos um caso na assistência. A velocidade de fecho dos pedidos ganhou peso a mais e os pedidos começaram a fechar mais depressa sem que o problema do cliente ficasse melhor resolvido. Ninguém deu ordem nenhuma. Chegou a equipa saber por onde ia ser avaliada.

Um indicador usado na avaliação continua a servir. Precisa é de contrapeso, outro indicador que se degrada quando se força o primeiro.

Motor 3. OKRs

Sei o que estás a pensar. Mais uma sigla.

Um OKR, objetivo e resultados-chave, junta um Objetivo com dois a quatro Resultados-Chave que dizem se a mudança está mesmo a acontecer. Serve para organizar o que escolheste mudar neste ciclo e mais nada.

A confusão frequente é com os indicadores de gestão. Os KPIs acompanham a saúde, os OKRs organizam a mudança. E o mesmo número pode servir nos dois papéis quando a empresa decide alterá-lo a sério num trimestre.

Escolhe poucas mudanças. Numa PME a começar, eu ficaria por duas ou três por trimestre. E as iniciativas por baixo mudam sempre que não estiverem a mover os resultados. Não começaria por uma implementação alargada sem cadência mínima e sem dados utilizáveis, mas um piloto com uma equipa costuma chegar para instalar a disciplina. O método completo está em fazer a estratégia acontecer com OKRs.

Motor 4. Governação e direitos de decisão

Se um diretor teu não sabe até que valor pode aprovar uma despesa, ou que desconto pode fechar sem pedir licença, não tens autonomia. Tens espera organizada.

Governação, aqui, é o conjunto de regras que clarifica quem decide, dentro de que limites, com que informação e em que situações as decisões sobem. Muita gente trata isto como uma escolha entre dar autonomia e manter controlo, quando se trata de um doseamento. Os limites variam com o valor, o risco, a reversibilidade, o tipo de assunto, a experiência de quem decide e os requisitos legais.

O mínimo que faria: escrever as regras para os cinco tipos de decisões que mais te custam tempo. Só isso liberta semanas.

Motor 5. Memória e aprendizagem

Este é o motor que quase todos saltam.

Serve para a empresa não repetir. Faz-se com registos de decisões, pré-leituras, debriefs depois de negócios ganhos e perdidos e retrospetivas no fecho de cada ciclo.

O erro é confundir arquivo com a memória. Guardar documentos não ensina nada se não houver um momento em que alguém olha para trás e decide o que muda. Uma retrospetiva por ciclo, com duas ou três alterações revistas no ciclo seguinte, chega para começar.

Estratégia, KPI, Objetivo, Resultado-Chave, iniciativa, tarefa

Muita da confusão vem de tratar estas seis camadas como se fossem a mesma coisa.

Camada Pergunta a que responde Horizonte Exemplo
Estratégia Onde competimos e como ganhamos? 1 a 3 anos Concentrar a empresa em clientes industriais com contratos recorrentes
KPI Como está a saúde do negócio? Contínuo Taxa anual de renovação de contratos
Objetivo O que mudamos neste ciclo? 1 trimestre Tornar a renovação de contratos previsível
Resultado-Chave Como sabemos que mudou? 1 trimestre Subir a taxa de renovação de 71% para 82% até ao fim do trimestre
Iniciativa O que fazemos para alterar o resultado? 4 a 12 semanas Rever o acompanhamento dos clientes com contrato a terminar
Tarefa Qual é a próxima ação? Dias Contactar os doze clientes sem reunião nos últimos seis meses

Repara na segunda linha e na quarta. A taxa de renovação acompanha-se sempre, como sinal de saúde. E num trimestre em que a empresa decide mexer-lhe a sério passa também a servir de Resultado-Chave. O mesmo número em dois papéis. E perceber isto poupa-te a duplicação de painéis que vejo em tantas empresas.

Como organizar a cadência de gestão

Cada camada da cadência trata de um tipo de problema diferente. Misturá-las é a razão pela qual tantas reuniões de gestão acabam a discutir um cliente durante quarenta minutos.

Cadência mínima

Se não tens nada montado, começa por três momentos e mais nada.

Uma reunião semanal, curta, de execução e bloqueios, onde cada equipa diz o que avançou, o que está parado e o que decide agora. Numa empresa pequena pode ser uma única reunião com toda a gente. Não obrigues ninguém a duas por semana.

Uma revisão mensal dos indicadores. Os que estão dentro do esperado passam depressa. Os que estão fora ficam, com o responsável a apresentar os factos e a ação que propõe.

E uma revisão trimestral das prioridades e da aprendizagem, onde se fecha o ciclo e se decide o que entra e o que sai. A parte do que sai é a que quase todas as empresas saltam.

Cadência mais madura

Quando estes três estiverem a funcionar, aí sim vale a pena acrescentar peças. Pré-leituras antes das reuniões, uma sessão separada para dependências transversais, uma revisão periódica de recursos, um momento anual de estratégia e orçamento e retrospetivas estruturadas em vez de conversas de fim de trimestre.

A frequência certa depende da velocidade a que a situação muda e do custo de a apanhar tarde. E entre o fecho de um trimestre e o arranque do seguinte, deixa espaço, porque uma equipa sem folga mental repete os padrões do ciclo anterior.

Como transformar reuniões em decisões

Há uns anos, um fundador de uma PME com cerca de 40 pessoas queixava-se de que a empresa tinha reuniões a mais. Perguntei-lhe quantas horas passava ele próprio em reuniões e não soube responder. Fizemos as contas ali, à mão e chegámos perto das 20 horas por semana. Quase todas convocadas por ele.

O custo é invisível e é real. Uma reunião de noventa minutos com oito pessoas consome doze horas de trabalho coletivo.

Reuniões que fecham

A regra que uso é fechar cada assunto com sete elementos. Não precisa de ata, precisa de sete linhas.

Elemento Pergunta antes de mudar de assunto
Decisão O que ficou decidido, em linguagem que quem não esteve perceba?
Responsável Quem responde pela implementação?
Prazo Que data, com dia marcado?
Condição de conclusão Como saberemos que está feito?
Envolvidos Quem participa na execução?
Informados Quem tem de saber do resultado?
Revisão Quando voltamos a olhar para isto?

E há coisas que têm de sair da sala: informação que podia ter sido enviada antes, pontos de situação extensos, discussões que não vão terminar em decisão e participantes sem papel nenhum.

Na PHC criei um sistema a que chamei meetings@speed, porque o problema quase nunca estava na reunião. Estava no que acontecia, ou não, nos dias anteriores. Adotei três práticas: materiais enviados com antecedência, poucos participantes e o pedido de que cada pessoa chegasse com uma conclusão e uma pergunta sobre o que tinha lido.

Funcionaram para nós, sem números fixos, porque uma reunião comercial urgente e uma revisão mensal não pedem a mesma preparação.

Há um efeito lateral que vale a pena por si só. Pedir à equipa que classifique antes os temas mais importantes costuma mostrar ao líder que o que ele achava secundário é a maior preocupação de quem está mais perto do trabalho. Já me aconteceu mais vezes do que gostaria. Sobre isto, escrevi em antes da reunião já estás a ganhar ou a perder.

O modelo D.R.I.E.

Mesmo com limites escritos, continuava a haver hesitação sobre quem decidia, quem executava e quem tinha de saber. Peguei na lógica de modelos como o RACI, simplifiquei até caber na cabeça das pessoas e chamei-lhe D.R.I.E. [VALIDAR COM RICARDO: origem e uso efetivo do modelo na PHC. Efeito na redução de interrupções sobre descontos.]

  • D, decide. Uma pessoa com palavra final naquele tipo de assunto.
  • R, responde pela implementação. Uma pessoa que coordena a execução e responde pelo resultado, mesmo que várias contribuam.
  • E, envolvido. Pessoas consultadas antes da decisão ou durante a implementação porque têm conhecimento relevante.
  • I, informado. Pessoas que precisam de conhecer a decisão e as suas consequências, sem participar necessariamente na escolha.

A distinção entre o E e o I é a que mais confusão gera e a que mais tempo poupa. Envolver significa que a opinião daquela pessoa entra antes de fecharem as decisões. Informar significa que já estão tomadas e ela precisa de as conhecer para ajustar o trabalho.

Tratar informados como envolvidos enche as salas. Tratar envolvidos como informados produz decisões que rebentam na execução três semanas depois, quando já ninguém se lembra de quem não foi ouvido.

O que faz isto funcionar é a pergunta entrar na linguagem corrente. A matriz por si só não muda nada.

Ao lado do modelo precisas das regras de limite. Limites por tipo de assunto, com o valor a partir do qual as decisões sobem, poderes definidos por função e não por pessoa, exceções previstas e um caminho de escalada com prazo. Mede também o tempo parado em cada etapa, porque é o número que revela onde o sistema está a mentir a si próprio.

O risco disto é transformar-se em burocracia. Evita-se começando por meia dúzia de tipos de decisões, os que mais custam em tempo e em conflito. E desenhando cada fluxo para cortar aprovações em vez de as multiplicar.

Informação, liderança e cultura

Durante demasiados anos fui eu a central de informação da empresa. Perguntava como iam as vendas, se o produto avançava e se havia algum problema sério com pessoas. Chamava-lhe controlo. Era dependência.

O problema nunca foi o CEO querer saber. O que trava a empresa é o CEO ser o único caminho pelo qual a informação circula. Nesse desenho, o que ele não pergunta não existe. E o que lhe chega já passou por quem preferia não dar más notícias.

Seis mecanismos substituem o CEO como central:

  • Indicadores acessíveis a quem trabalha com eles.
  • Registo de decisões num sítio comum e pesquisável.
  • Atualizações assíncronas, em vez de pedidos de ponto de situação.
  • Contacto direto com clientes, sem intermediários a resumir.
  • Debriefs curtos depois de negócios ganhos e perdidos.
  • Retrospetivas no fecho de cada ciclo, com alterações ao sistema.

Sobre os canais anónimos tenho dúvidas. Funcionam em empresas com alguma dimensão. Numa equipa de quinze pessoas o anonimato é quase impossível de proteger, porque a maneira de escrever denuncia quem escreveu. E prometer o que não se garante custa mais do que não prometer.

Contei o que fiz para deixar de saber apenas uma fração do que se passava em o CEO sabe 4% do que se passa. A outra fonte quase sempre desperdiçada é o cliente, tema de o cliente sabe coisas que tu não sabes.

Agora a parte que deixo para o fim e devia vir primeiro. Um sistema bem desenhado, numa empresa onde ninguém cumpre o que combina, aguenta dois trimestres. Depois volta tudo ao que era. E fica pior, porque as pessoas passam a desconfiar de sistemas. Quatro condições decidem se se mantém de pé.

Compromissos com valor. Se uma data combinada escorrega três vezes sem consequência, a empresa aprendeu que datas são sugestões. É aqui que entra a capacidade de dizer não, porque quem aceita tudo falha alguma coisa.

Más notícias que podem circular. Se quem traz um problema cedo é tratado como o problema, na vez seguinte ninguém traz nada. Exposto cedo, um problema resolve-se com duas pessoas numa conversa. Descoberto tarde, precisa de uma reunião de crise.

Exigência com respeito. Nível alto e ausência de medo não são opostos. É com nível alto que a ausência de medo passa a interessar. E é também aqui que a autonomia funciona, porque só faz sentido dar espaço a quem responde pelo que faz com ele.

Cooperação entre áreas. Se o reconhecimento continua a ser local, o comportamento também será, por mais discursos que se façam sobre colaboração.

No Project Aristotle, um estudo interno sobre 180 equipas da Google, a segurança psicológica surgiu como a primeira de cinco dinâmicas associadas à eficácia, seguida de fiabilidade, estrutura e clareza, significado e impacto. A própria Google avisa que os resultados correspondem ao contexto dela. Uso-os porque batem certo com o que vi, sem provarem seja o que for sobre a tua empresa.

Um detalhe que mudou as minhas retrospetivas foi passar a falar em último. Quando o líder fala cedo, a sala ajusta-se à opinião dele sem dar por isso e o que sai é obediência com aspeto de consenso. Sobre os comportamentos que sustentam isto, escrevi em qual destes 9 ingredientes falta na tua cultura.

Plano de implementação em 90 dias

Não montes tudo ao mesmo tempo. A maior parte dos CEOs que conheço desiste na semana cinco, quando a operação aperta e ainda não há nada para mostrar. Os números que se seguem são o meu ponto de partida.

Dias 1 a 30. Ver e escolher

O primeiro mês é para ganhar clareza e para cortar. Escreve a estratégia numa página, fixa três prioridades, faz o inventário das reuniões, das decisões paradas e dos bloqueios entre áreas, instala a cadência mínima e identifica o trabalho que tem de parar.

Sabes que corre bem quando a direção diz as mesmas três prioridades sem consultar o documento e quando existe uma lista escrita do que sai. O risco é o inventário transformar-se num diagnóstico sem fim, por isso dá-te 30 dias e acaba.

Está fechada quando a página está escrita, as prioridades fixadas e há uma coisa que a empresa deixou mesmo de fazer.

Dias 31 a 60. Clarificar e decidir

O segundo mês ataca a ambiguidade, que é onde se perde mais tempo. Escolhe cinco a dez indicadores essenciais com definição e fonte acordadas. Escreve os limites para cinco tipos de decisões. Passa as reuniões a fechar com decisão, responsável e data. Cria o registo das decisões e documenta um processo crítico, um só.

Os sinais são discretos: menos discussões sobre de quem é o número certo e assuntos que antes subiam a resolverem-se abaixo. O risco é a documentação crescer sem ninguém a usar. Fecha-se a fase quando há uma reunião mensal de indicadores que termina com decisões escritas.

Dias 61 a 90. Executar e aprender

O terceiro mês serve para fechar um ciclo inteiro, uma vez que seja. Define um Objetivo prioritário com dois ou três Resultados-Chave, faz check-in semanal, resolve bloqueios num momento fixo e termina com retrospetiva e duas ou três alterações ao sistema.

O melhor sinal é a equipa começar a levantar problemas antes do fim do trimestre, em vez de esperar pela autópsia. O risco é escolheres um objetivo grande demais e chegares ao fim sem nada fechado.

Não prometo transformação em noventa dias, até porque não a vi acontecer nunca. Os primeiros sinais que procuraria são menos decisões desnecessárias a subir, reuniões com fecho mais claro e um ciclo prioritário concluído.

Erros, checklist e perguntas frequentes

Oito erros que vejo repetidos

Quase todos nascem de boas intenções e é isso que os torna difíceis de parar.

  1. Acrescentar prioridades sem retirar trabalho.
  2. Criar reuniões para resolver o que é falta de decisões.
  3. Medir tudo e reagir a pouco.
  4. Atribuir responsáveis a departamentos em vez de pessoas.
  5. Não registar decisões e voltar a discuti-las meses depois.
  6. Comprar software antes de ter método, porque a ferramenta amplifica a confusão existente.
  7. O CEO patrocinar o sistema e ser o primeiro a faltar à cadência que criou.
  8. Não fechar ciclos, o que garante muito trabalho e pouca melhoria.

Checklist

Assinala os "não" e escolhe os dois que mais atrasam a execução. São esses que devem entrar no plano dos próximos trinta dias.

  • Se perguntar em separado aos meus diretores quais são as três prioridades do ano, recebo a mesma resposta?
  • Nas últimas seis semanas, algum tema estratégico ocupou tempo de execução e não só de reunião?
  • Saiu alguma coisa da lista de prioridades nos últimos três meses?
  • Cada prioridade tem alguém que aceitou publicamente responder por ela?
  • Na última reunião de gestão saíram decisões com responsável, prazo e condição de conclusão?
  • Quando um indicador saiu do esperado, aconteceu alguma coisa por causa disso?
  • Continuam a subir até mim decisões sem razão de risco, valor ou lei?
  • O último trimestre terminou com alterações ao sistema, com responsável e data?
  • Se eu estivesse duas semanas fora, quantos destes mecanismos continuavam a funcionar? O teste das férias responde melhor do que qualquer autoavaliação.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre estratégia e execução? A estratégia é a escolha de onde competir e como ganhar. A execução é o que faz essa escolha aparecer nas agendas, nos recursos e nas decisões do dia a dia. Uma empresa pode ter uma estratégia correta e falhar na execução, o caso mais comum nas PME com que trabalho. Para distinguir as duas, olha para a agenda e para o orçamento: se a estratégia mudou e nem o tempo nem o dinheiro mudaram de sítio, tens um documento em vez de uma direção. Escrevi sobre isso em a estratégia raramente chega a março.

Quantas prioridades deve ter uma PME? O meu ponto de partida são três por ano e duas a três por trimestre, com razões legítimas para variar. Uma empresa com áreas de negócio independentes suporta mais, porque as prioridades não competem pelos mesmos recursos. Uma empresa em recuperação devia ter menos. O teste que uso é a capacidade de retirar e não o número. Se acrescentaste uma prioridade e não conseguiste dizer o que sai para lhe dar espaço, aquilo continua a ser uma intenção acrescentada à lista.

Quantos indicadores deve acompanhar? Para uma PME que começa, tentaria manter o painel da direção entre dez e quinze, com o resto a viver nos painéis das equipas. O número certo depende da complexidade do negócio. E quem tem duas linhas muito diferentes precisa de mais. Mais importante do que a quantidade é cada indicador ter definição, fonte acordada, responsável e ação prevista para quando sai do esperado. Um painel com oitenta números é uma forma sofisticada de não olhar para nenhum.

Qual é a diferença entre KPI e Resultado-Chave? O KPI mede a saúde recorrente do negócio e acompanha-se sempre. O Resultado-Chave mede o progresso de uma mudança escolhida para um ciclo, com fim marcado. O mesmo número pode desempenhar os dois papéis: a taxa de renovação é um KPI que acompanhas sempre e, num trimestre em que decides melhorá-la a sério, passa também a ser Resultado-Chave de um Objetivo. Perceber isto evita duplicar painéis e poupa a conversa estéril sobre a categoria de cada número.

Como reduzir reuniões? Começa por cortar as que não terminam em decisões e passa para escrito a informação que só precisa de ser conhecida. Depois reduz participantes, envia materiais com antecedência e cancela sem cerimónia qualquer reunião que chegue ao dia sem preparação. Uma cadência bem montada absorve a maior parte dos alinhamentos improvisados, porque as pessoas sabem que há um momento próximo para o assunto. Números fixos não recomendo, porque cada tipo de reunião pede preparação diferente.

Como responsabilizar sem microgerir? Combina antes o resultado, o prazo, os limites de decisão e as condições em que o assunto deve ser escalado. Depois acompanha nos momentos acordados, com factos, em vez de interromper ao longo da semana. Isto não significa esperar que a pessoa peça ajuda. Se uma condição de escalada previamente definida for atingida, como um desvio acima de determinado valor ou um bloqueio de mais de uma semana, a intervenção é legítima. O que destrói a responsabilização é intervir sem regra definida.

Como impedir que a operação consuma a estratégia? Reserva o tempo antes de a operação o poder disputar e trata-o como tratas uma reunião com o maior cliente. Ajuda ter uma prioridade do trimestre com responsável e check-in semanal, porque o que tem momento marcado sobrevive. Ajuda também retirar trabalho. Na maior parte das empresas que vejo, a operação tem cliente do outro lado e a estratégia não tem ninguém a reclamar por ela. Sobre isto, escrevi em o custo de continuar igual.

Como decidir quem tem autoridade? Olho para sete coisas: proximidade ao trabalho e ao cliente, competência naquele tipo de assunto, risco, reversibilidade, valor envolvido, requisitos legais e quem responde pelo resultado. Decisões reversíveis e de valor baixo deviam ficar onde está o contexto, mesmo que a pessoa seja júnior. Decisões irreversíveis, com risco legal ou reputacional, sobem. Escreve os limites por função e não por pessoa e revê-os uma vez por ano.

Este sistema não resolve um produto fraco, um mercado em contração nem decisões difíceis sobre pessoas. Resolve a distância entre o que decidiste e o que acontece, que é o maior desperdício de uma PME com gente competente lá dentro.

Abre a agenda das próximas seis semanas e procura onde estão as três prioridades da empresa. Se não as encontrares, começa por aí.

Leituras complementares

Fontes

  • INE, divulgação de junho de 2025 com dados de 2023. Dados estatísticos oficiais sobre o peso das PME no tecido empresarial português. ine.pt
  • Donald Sull, Rebecca Homkes e Charles Sull, "Why Strategy Execution Unravels and What to Do About It", Harvard Business Review, março de 2015, com a amostra confirmada pela London Business School. Inquérito empresarial em organizações grandes, não generalizável a PME.
  • Google re:Work, "Understand team effectiveness". Estudo interno da Google, com validade limitada ao seu contexto. rework.withgoogle.com
  • Casos da PHC Software, modelo D.R.I.E. e meetings@speed. Casos empresariais e heurísticas próprias, apresentados como experiência.

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